olhando pra dentro
pro foco do incêndio
decidi por um momento
jogar mais dor e lamento
pra que o amor queime forte
e com um pouco de sorte
descubro até onde eu aguento.
Kabs
se por acaso
a gente se cruzasse
ia ser um caso sério
você ia rir até amanhecer
eu ia ir até acontecer
de dia um improviso
de noite uma farra
a gente ia viver
com garra
eu ia tirar de ouvido
todos os sentidos
ia ser tão divertido
tocar um solo em dueto
ia ser um riso
ia ser um gozo
ia ser todo dia
a mesma folia
até deixar de ser poesia
e virar tédio
e nem o meu melhor vestido
era remédio
daí vá ficando por aí
eu vou ficando por aqui
evitando
desviando
sempre pensando
se por acaso
a gente se cruzasse..
Alice Ruiz
mostrei pra ela a poesia
Bandeira, Quintana, Drummond
falei do trabalho, do suor
era mais que um dom,
ela disse que introspecção
é desculpa boba,
problema de criação.
culpa da minha baixa
muito baixa, auto-estima
quando no fundo
era a alta,
muito alta baixa estima,
pra ela foi o fim do mundo
pra mim só mais uma rima.
Kleber
Eduarda acabou de entrar
Mal a conhecia, tinham alguns amigos em comum e nem se lembrava desde quando ela estava ali. Mais que matar trabalho, sentiu um interesse que o surpreendeu, escorregou um oi.
A resposta foi rápida, sentiu prazer na reciprocidade. Depois das convenções de cumprimentos e perguntas socias a conversa evoluiu rapidamente. Discorreram sobre música, letras e afins, descobriram diferenças e dentre as afinidades uma tara por conhaques.
Pairava sobre o papo um flerte oculto, nenhum dos dois queria ser o primeiro a revelá-lo, porém encontraram uma forma de manifestarem suas intenções, logo estavam fantasiando um encontro casual que mais escancarava que velava os desejos:
- No apartamento dele.
- Sim, está frio e chovendo.
- Ela chega atrasada.
- Você chagaria atrasada?
- Chegaria um pouco, acho um charme. Tem que ter uma vitrola e lareira.
Continuaram o conto, cada um comandando seu avatar. Em determinada altura, quando o casal já estava trocando carícias, ela interrompe:
- Preciso sair.
- Eu não tenho seu telefone.
Anotou o telefone, combinaram de conversarem pessoalmente e ela saiu.
Antes mesmo de ele voltar ao trabalho ela reapareceu:
- Pode ser hoje?
- Pode sim.
- 19:30?
- 19:30 no Soberano.
- Fechado, até mais.
Ele levantou, foi até um amigo e pediu dinheiro, previa gastos que seu bolso surrado não suportaria, o cúmplice patrocinou-lhe a noite.
O bar estava semi-vazio, apenas os fieis etílicos ancorados no balcão faziam número naquela terça de tempo fechado. Assim que entrou, visualizou a mesa mais afastada, mal iluminada e perfeita. Sentou-se e fumou, a seco, queria a companhia para começar a beber.
Ela chegou atrasada – achou-a previsível – e visivelmente desconsertada, não muito diferente dele:
- O que vamos beber?
Parecia evidente, mas ele não queria parecer seguro demais.
- Conhaque né?
A primeira dose serviu para derrubar a diferença do computador e o contato ao vivo, complementaram os assuntos tidos à tarde e iniciaram outros. Ela falou sobre seu gosto vintage, de como era uma pinup perdida no futuro. Ele ouviu achando-a sofisticada.
O período da segunda dose foi dele, contou sobre uma nova descoberta que tinha feito um cantor fantástico, desfilou seu conhecimentos recém adquiridos sobre o roqueiro e sentiu vergonha quando descobriu que ela dominava aquela biografia e obra muito mais que ele.
Com o tempo passando, o conhaque encarregou-se de dar maior dinâmica ao encontro, entraram no assunto que ambos estavam interessados, por iniciativa dela:
- Você já fez algo daquilo que conversamos hoje à tarde?
Ele riu contidamente.
- Sei que com certeza algumas coisas já, mas me refiro ao clima, à chuva, lareira, vitrola...
- Não, nunca.
- É, eu também só em fantasias...
Alcançada a fase do flerte aberto e descarado, entravam também na quarta rodada de conhaque, ela nitidamente curvada na direção dele demonstrava a embriagues a cada palavra que tropegamente pronunciava. Ele dissimulado, arquitetava uma maneira que ao menos parecesse digna de levá-la pra cama, falhou:
- Tem hora de ir pra casa?
- Talvez não, por quê?
- Podemos ir pra um hotel.
- Humm...
Pediram mais uma dose, a saideira. Ela ligou em casa, avisou que dormiria na casa de uma amiga. Terminaram os copos e partiram.
Ventava forte, e a chuva espreitava. Na rua abraçados, foi que perceberam o quanto estavam bêbados, ela mais, tinha dificuldade até com as imperfeições da calçada. O hotel era próximo ao bar, mas o caminho demorou nem tanto pelos desvios do álcool, mas pelas bruscas paradas que davam quando seus beijos coravam até as putas das três esquinas por que passaram.
Chegaram e o recepcionista logo percebeu que o casal embora estivesse viajando, não estava ali para uma revigorante noite de sono, cobrou adiantado e disse um boa noite malicioso, ela olhou pra baixo, pra ele o conhaque cobriu o embaraço.
No quarto sem lareira, nem vitrola, a despiu sem gentilezas e romantismos, ela não pareceu importar-se.
Choveu e amanheceu. A luz trouxe a ressaca, a sobriedade e certo acanhamento, conversaram o necessário para ambos descobrirem que estavam com fome. Desceram e no salão onde serviam o café, comeram em silêncio juntos à uma família, alguns viajantes de notebook e um solitário senhor.
Saíram do hotel juntos sob o guarda-chuva dela, três quadras depois:
- Vou por aqui ...
- Eu pra cá.
Um curto beijo.
Quando ele chegou ao trabalho ainda foi tomar mais um café, deu um tapa nas costas do amigo parceiro e ligou o computador. Alguns minutos depois lia um aviso na tela, Eduarda tinha acabado de entrar.
Kabs