31 de março de 2010

olhando pra dentro

pro foco do incêndio

decidi por um momento

jogar mais dor e lamento

 

pra que o amor queime forte

e com um pouco de sorte

descubro até onde eu aguento.

 

Kabs

30 de março de 2010

    Se

    se por acaso
    a gente se cruzasse
    ia ser um caso sério
    você ia rir até amanhecer
    eu ia ir até acontecer
    de dia um improviso
    de noite uma farra
    a gente ia viver
    com garra

    eu ia tirar de ouvido
    todos os sentidos
    ia ser tão divertido
    tocar um solo em dueto

    ia ser um riso
    ia ser um gozo
    ia ser todo dia
    a mesma folia
    até deixar de ser poesia
    e virar tédio
    e nem o meu melhor vestido
    era remédio

    daí vá ficando por aí
    eu vou ficando por aqui
    evitando
    desviando
    sempre pensando
    se por acaso
    a gente se cruzasse..

 

 

Alice Ruiz

24 de março de 2010

mostrei pra ela a poesia

Bandeira, Quintana, Drummond

falei do trabalho, do suor

era mais que um dom,

ela disse que introspecção

é desculpa boba,

problema de criação.

 

culpa da minha baixa

muito baixa, auto-estima

 

quando no fundo

era a alta,

muito alta baixa estima,

 

pra ela foi o fim do mundo

pra mim só mais uma rima.

 

 

Kleber

22 de março de 2010

Eduarda acabou de entrar

 

          Mal a conhecia, tinham alguns amigos em comum e nem se lembrava desde quando ela estava ali. Mais que matar trabalho, sentiu um interesse que o surpreendeu, escorregou um oi.

          A resposta foi rápida, sentiu prazer na reciprocidade. Depois das convenções de cumprimentos e perguntas socias a conversa evoluiu rapidamente. Discorreram sobre música, letras e afins, descobriram diferenças e dentre as afinidades uma tara por conhaques.

          Pairava sobre o papo um flerte oculto, nenhum dos dois queria ser o primeiro a revelá-lo, porém encontraram uma forma de manifestarem suas intenções, logo estavam fantasiando um encontro casual que mais escancarava que velava os desejos:

- No apartamento dele.

- Sim, está frio e chovendo.

- Ela chega atrasada.

- Você chagaria atrasada?

- Chegaria um pouco, acho um charme. Tem que ter uma vitrola e lareira.

          Continuaram o conto, cada um comandando seu avatar. Em determinada altura, quando o casal já estava trocando carícias, ela interrompe:

- Preciso sair.

- Eu não tenho seu telefone.

      Anotou o telefone, combinaram de conversarem pessoalmente e ela saiu.

     Antes mesmo de ele voltar ao trabalho ela reapareceu:

- Pode ser hoje?

- Pode sim.

- 19:30?

- 19:30 no Soberano.

- Fechado, até mais.

       Ele levantou, foi até um amigo e pediu dinheiro, previa gastos que seu bolso surrado não suportaria, o cúmplice patrocinou-lhe a noite.

        O bar estava semi-vazio, apenas os fieis etílicos ancorados no balcão faziam número naquela terça de tempo fechado. Assim que entrou, visualizou a mesa mais afastada, mal iluminada e perfeita. Sentou-se e fumou, a seco, queria a companhia para começar a beber.

        Ela chegou atrasada – achou-a previsível – e visivelmente desconsertada, não muito diferente dele:

- O que vamos beber?

Parecia evidente, mas ele não queria parecer seguro demais.

- Conhaque né?

         A primeira dose serviu para derrubar a diferença do computador e o contato ao vivo, complementaram os assuntos tidos à tarde e iniciaram outros. Ela falou sobre seu gosto vintage, de como era uma pinup perdida no futuro. Ele ouviu achando-a sofisticada.

       O período da segunda dose foi dele, contou sobre uma nova descoberta que tinha feito um cantor fantástico, desfilou seu conhecimentos recém adquiridos sobre o roqueiro e sentiu vergonha quando descobriu que ela dominava aquela biografia e obra muito mais que ele.

       Com o tempo passando, o conhaque encarregou-se de dar maior dinâmica ao encontro, entraram no assunto que ambos estavam interessados, por iniciativa dela:

- Você já fez algo daquilo que conversamos hoje à tarde?

        Ele riu contidamente.

- Sei que com certeza algumas coisas já, mas me refiro ao clima, à chuva, lareira, vitrola...

- Não, nunca.

- É, eu também só em fantasias...

         Alcançada a fase do flerte aberto e descarado, entravam também na quarta rodada de conhaque, ela nitidamente curvada na direção dele demonstrava a embriagues a cada palavra que tropegamente pronunciava. Ele dissimulado, arquitetava uma maneira que ao menos parecesse digna de levá-la pra cama, falhou:

- Tem hora de ir pra casa?

- Talvez não, por quê?

- Podemos ir pra um hotel.

- Humm...

        Pediram mais uma dose, a saideira. Ela ligou em casa, avisou que dormiria na casa de uma amiga. Terminaram os copos e partiram.

        Ventava forte, e a chuva espreitava. Na rua abraçados, foi que perceberam o quanto estavam bêbados, ela mais, tinha dificuldade até com as imperfeições da calçada. O hotel era próximo ao bar, mas o caminho demorou nem tanto pelos desvios do álcool, mas pelas bruscas paradas que davam quando seus beijos coravam até as putas das três esquinas por que passaram.

          Chegaram e o recepcionista logo percebeu que o casal embora estivesse viajando, não estava ali para uma revigorante noite de sono, cobrou adiantado e disse um boa noite malicioso, ela olhou pra baixo, pra ele o conhaque cobriu o embaraço.

          No quarto sem lareira, nem vitrola, a despiu sem gentilezas e romantismos, ela não pareceu importar-se.

         Choveu e amanheceu. A luz trouxe a ressaca, a sobriedade e certo acanhamento, conversaram o necessário para ambos descobrirem que estavam com fome. Desceram e no salão onde serviam o café, comeram em silêncio juntos à uma família, alguns viajantes de notebook e um solitário senhor.

         Saíram do hotel juntos sob o guarda-chuva dela, três quadras depois:

- Vou por aqui ...

- Eu pra cá.

       Um curto beijo.

      Quando ele chegou ao trabalho ainda foi tomar mais um café, deu um tapa nas costas do amigo parceiro e ligou o computador. Alguns minutos depois lia um aviso na tela, Eduarda tinha acabado de entrar.

 

 

Kabs

16 de março de 2010

 

mudar não é fácil

mas não por isso

eu não faço.

não faço

por descompromisso,

por traço,

por omisso,

por sentir no mínimo

a maior parte do máximo.

 

Kabs

15 de março de 2010

depois de idas e vindas,

fica do amor

depois que finda,

a sensação

que não passou

de jás e aindas.

Kabs

 

11 de março de 2010

“ O tempo é o maior comedor de todos os tempos”

Kabs