28 de janeiro de 2009

Eu tenho uma cisma,

como rir do papel

sem ler uma rima?

 

Um vício de poema

como um estandarte,

como um Lema …

 

Kabs

22 de janeiro de 2009

 

Klips

 

Esses lábios

vezes pequenos

vezes grandes

hora únicos

outras vários

sabores úmidos

de prezeres raros

 

quando se põem

perpendiculares aos meus

numa cruz libertina

de jovens ateus,

tornam essa concha divina

um pecado de Deus.

 

 

Kabs

21 de janeiro de 2009

Ando longe

com um olhar Sabino

quanto mais quero

mais eu imagino,

angustiado,

quero saber

se o meu encontro

já foi marcado.

 

Kabs

20 de janeiro de 2009

 

 

Há felicidade

paraíso, shangrilá, nirvana

que exista ou resista

ao fim de um fim de semana ?

 

formiga o coração

quando o sol leva a alegria embora

o problema que você sempre nega

vem à tona nessa hora

em que o cotidiano não cega

 

e no abraço do cobertor

as angústias se multiplicam

até as certezas mais convictas

na noite de um domingo

nos parecem fictícias

 

você terá a prova

de que a felicidade existe

quando esperar

por uma segunda feira

sem se sentir triste.

 

 

Kabs

19 de janeiro de 2009

Lema

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

“O poeta se define sobretudo por uma capacidade de criar beleza com linguagem”

 

Paulo Leminski

17 de janeiro de 2009

Materiais

 

troquei o velho coração de pedra

por um novo

de borracha,

devolve cada pancada que leva,

mas com os intempéries do tempo

 

também racha.

 

 

Kabs

13 de janeiro de 2009

O (Des) Acordo Gramatical

 

Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal
Ainda vai tornar-se um imenso Portugal

Fado Tropical
Chico Buarque e Ruy Guerra

 

     O fragmento acima do poema “Fado tropical” de 1972, fruto da parceria entre Chico Buarque e o moçambicano Ruy Guerra, é uma referência a então recém deflagrada revolução dos cravos, movimento que livrou Portugal de uma sangrenta ditadura militar. Os autores referem-se à esperança de que o Brasil também se livrasse dos militares que ainda detinham o poder na Terra Brasilis.

     Foi nessa letra de música que lembrei quando surgiram as primeiras discussões sobre o acordo ortográfico. Lembrei porque uma das críticas vindas além mar sobre o acordo é justamente o contrário do que diz a letra,ou seja, alguns portugueses se queixam, alegando que a reforma os impõe um português “abrasileirado” apoiados no fato da reforma atingir três vezes mais palavras na ortografia lusitana do que na nossa.

     Há 36 anos os brasileiros queriam “aportuguesar” nosso governo, evidente que as esferas da política e da língua são diferentes, porém é curioso notar que o desejo por melhoras não afetava a nacionalidade brasileira, não era vergonha nenhuma para o povo brasileiro tomar uma atitude ou até mesmo pensar como os portugueses.

     O que chama atenção nas críticas vindas de Portugal em relação ao acordo é o notório orgulho lusitano e o sentimento de proprietários da língua. Alguns portugueses sentem se feridos por terem que adotar novas grafias “impostas” pelo Brasil, num pensamento de pura nostalgia: o orgulho da metrópole está (ou “esta”?) sendo ferido, a colônia insolente está se rebelando através da língua!

     Talvez o caráter romântico, muitas vezes físico de alguns escritores e poetas portugueses em relação à língua motivem esse ciúme às mudanças propostas pelo Brasil. Em 1911, Fernando Pessoa não gostou nem um pouco da reforma ortográfica unilateral que Portugal realizou, em relação à mudança de “cysne” por “cisne” ele disse: “Vou continuar a escrever com y, porque me lembra o pescoço do animal”. Manifestações como essa ainda existem quase cem anos depois, contudo não são desculpa para reações tão passionais e ufanistas que de quebra, ainda deixam a vista certo ar de mágoa antiga da nossa Terra de Santa Cruz.

     O único escritor de língua portuguesa a receber um prêmio Nobel de literatura, o Português José Saramago manifestou-se da seguinte forma: “Já fui contra, porém o Brasil tem um papel fundamental nesse cenário, o que me levou a mudar de idéia foi o problema da escrita. Se o português quer ganhar influência no mundo, tem de apresentar-se com uma grafia única. O Brasil tem no contexto internacional uma presença que nós [portugueses] não temos.”

     Todos têm o direito de expressar sua opinião no contexto do tema e sobre a sua necessidade, o problema é que a discussão sobre a reforma ortográfica está saindo do domínio gramatical e transformando-se em um arranca-rabo (ou arrancarrabo?) de egos patrióticos. E por falar em patriotismo, se tivessem dado ouvidos a Policarpo Quaresma, estaríamos brigando (ainda mais) com os índios pela soberania do Tupi-Guarani?

 

Kleber Bordinhão