Nozes II
Há tantos nós aqui dentro
que se um só nós
desata,
reatar de novo
não será fácil
como é na gravata
acho que um dia desses
uma cisma dessas
ainda me mata.
Kabs
Nozes II
Há tantos nós aqui dentro
que se um só nós
desata,
reatar de novo
não será fácil
como é na gravata
acho que um dia desses
uma cisma dessas
ainda me mata.
Kabs
Turismo literário
Curta toda a viagem,
passageiro das palavras
de avião ou carruagem
Sem itinerário,
de um pensar ao outro,
sem obrigação de horário
de Leminski à Pessoa
numa página Curitiba,
na outra, Lisboa.
Kabs
Velhos tempos modernos
O som do sino
nesses novos dias
vem do alto-falante,
quase tudo muda
só uma norma
ainda é constante:
o valor do fiel
vem do fato
dele ser pagante.
Kabs
Fraterlicidade
O amor e a amizade
não são irmãos
por um triz.
Mas caso fossem,
a amizade seria
a irmã mais feliz.
Kabs
Rimo e rimos
Passarinho parnasiano,
nunca rimo tanto como faz.
Rimo logo ando com quando,
mirando menos com mais.
Rimo, rimo, miras, rimos,
como se todos rimássemos,
como se todos nós ríssemos,
se amar fosse fácil.
Perguntarem por que rimo tanto,
responder que rima é coisa rara.
O raro, rarefeitamente, pára,
como pára, sem raiva, qualquer canto.
Rimar é parar, parar para ver e escutar
remexer lá no fundo do búzio
aquele murmúrio inconcluso,
Pompéia, idéia, Vesúvio,
o mar que só fala do amor.
Vida, coisa pra ser dita,
como é dita esse fado que me mata.
Mal o digo e já meu dito se conflita
com toda a cisma que, maldita, me maltrata.
Paulo Leminski