29 de abril de 2008

Sentimento

perdido,

Sem

ti

minto

e

sinto

muito.

 

Kabs

24 de abril de 2008

A utopia é o cadáver do sonho.

 

Kabs

23 de abril de 2008

Embora

     haja saudade

cria do português,

     meu real problema

vem do latim:

     "taedìum"

não é pra mim.

 

 

Kabs

22 de abril de 2008

"A poesia está guardada nas palavras
é tudo o que eu sei.
Meu fado é de não entender quase tudo.
Sobre o nada eu tenho profundidades.
Não cultivo conexões com o real.
Para mim poderoso não é aquele
Que descobre ouro.
Poderoso para mim é aquele que
Descobre as insignificâncias: do mundo e as nossas.
Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil.
Fiquei emocionado e chorei.
Sou fraco para elogios"

Manoel de Barros

18 de abril de 2008

O Corvo

Fernando Pessoa

( Tradução do original "The Raven" de Edgar Allan Poe)

      Numa meia-noite agreste, quando eu lia, lento e triste,
      Vagos, curiosos tomos de ciências ancestrais,
      E já quase adormecia, ouvi o que parecia
      O som de alguém que batia levemente a meus umbrais
      «Uma visita», eu me disse, «está batendo a meus umbrais.
                  É só isso e nada mais.»

      Ah, que bem disso me lembro! Era no frio dezembro,
      E o fogo, morrendo negro, urdia sombras desiguais.
      Como eu qu'ria a madrugada, toda a noite aos livros dada
      P'ra esquecer (em vão) a amada, hoje entre hostes celestiais —
      Essa cujo nome sabem as hostes celestiais,
                  Mas sem nome aqui jamais!

      Como, a tremer frio e frouxo, cada reposteiro roxo
      Me incutia, urdia estranhos terrores nunca antes tais!
      Mas, a mim mesmo infundindo força, eu ia repetindo,
      «É uma visita pedindo entrada aqui em meus umbrais;
      Uma visita tardia pede entrada em meus umbrais.
                  É só isso e nada mais».

      E, mais forte num instante, já nem tardo ou hesitante,
      «Senhor», eu disse, «ou senhora, decerto me desculpais;
      Mas eu ia adormecendo, quando viestes batendo,
      Tão levemente batendo, batendo por meus umbrais,
      Que mal ouvi...» E abri largos, franquendo-os, meus umbrais.
                  Noite, noite e nada mais.

      A treva enorme fitando, fiquei perdido receando,
      Dúbio e tais sonhos sonhando que os ninguém sonhou iguais.
      Mas a noite era infinita, a paz profunda e maldita,
      E a única palavra dita foi um nome cheio de ais —
      Eu o disse, o nome dela, e o eco disse aos meus ais.
                  Isto só e nada mais.

      Para dentro estão volvendo, toda a alma em mim ardendo,
      Não tardou que ouvisse novo som batendo mais e mais.
      «Por certo», disse eu, «aquela bulha é na minha janela.
      Vamos ver o que está nela, e o que são estes sinais.»
      Meu coração se distraía pesquisando estes sinais.
                  «É o vento, e nada mais.»

      Abri então a vidraça, e eis que, com muita negaça,
      Entrou grave e nobre um corvo dos bons tempos ancestrais.
      Não fez nenhum cumprimento, não parou nem um momento,
      Mas com ar solene e lento pousou sobre meus umbrais,
      Num alvo busto de Atena que há por sobre meus umbrais.
                  Foi, pousou, e nada mais.

      E esta ave estranha e escura fez sorrir minha amargura
      Com o solene decoro de seus ares rituais.
      «Tens o aspecto tosquiado», disse eu, «mas de nobre e ousado,
      Ó velho corvo emigrado lá das trevas infernais!
      Dize-me qual o teu nome lá nas trevas infernais.»
                  Disse-me o corvo, «Nunca mais».

      Pasmei de ouvir este raro pássaro falar tão claro,
      Inda que pouco sentido tivessem palavras tais.
      Mas deve ser concedido que ninguém terá havido
      Que uma ave tenha tido pousada nos seus umbrais,
      Ave ou bicho sobre o busto que há por sobre seus umbrais,
                  Com o nome «Nunca mais».

      Mas o corvo, sobre o busto, nada mais dissera, augusto,
      Que essa frase, qual se nela a alma lhe ficasse em ais.
      Nem mais voz nem movimento fez, e eu, em meu pensamento
      Perdido, murmurei lento, «Amigo, sonhos — mortais
      Todos — todos lá se foram. Amanhã também te vais».
                  Disse o corvo, «Nunca mais».

      A alma súbito movida por frase tão bem cabida,
      «Por certo», disse eu, «são estas vozes usuais.
      Aprendeu-as de algum dono, que a desgraça e o abandono
      Seguiram até que o entono da alma se quebrou em ais,
      E o bordão de desesp'rança de seu canto cheio de ais
                  Era este «Nunca mais».

      Mas, fazendo inda a ave escura sorrir a minha amargura,
      Sentei-me defronte dela, do alvo busto e meus umbrais;
      E, enterrado na cadeira, pensei de muita maneira
      Que qu'ria esta ave agoureira dos maus tempos ancestrais,
      Esta ave negra e agoureira dos maus tempos ancestrais,
                  Com aquele «Nunca mais».

      Comigo isto discorrendo, mas nem sílaba dizendo
      À ave que na minha alma cravava os olhos fatais,
      Isto e mais ia cismando, a cabeça reclinando
      No veludo onde a luz punha vagas sombras desiguais,
      Naquele veludo onde ela, entre as sombras desiguais,
                  Reclinar-se-á nunca mais!

      Fez-me então o ar mais denso, como cheio dum incenso
      Que anjos dessem, cujos leves passos soam musicais.
      «Maldito!», a mim disse, «deu-te Deus, por anjos concedeu-te
      O esquecimento; valeu-te. Toma-o, esquece, com teus ais,
      O nome da que não esqueces, e que faz esses teus ais!»
                  Disse o corvo, «Nunca mais».

      «Profeta», disse eu, «profeta — ou demónio ou ave preta!
      Pelo Deus ante quem ambos somos fracos e mortais,
      Dize a esta alma entristecida se no Éden de outra vida
      Verá essa hoje perdida entre hostes celestiais,
      Essa cujo nome sabem as hostes celestiais!»
                  Disse o corvo, «Nunca mais».

      «Que esse grito nos aparte, ave ou diabo!, eu disse. «Parte!
      Torna à noite e à tempestade! Torna às trevas infernais!
      Não deixes pena que ateste a mentira que disseste!
      Minha solidão me reste! Tira-te de meus umbrais!»
                  Disse o corvo, «Nunca mais».

      E o corvo, na noite infinda, está ainda, está ainda
      No alvo busto de Atena que há por sobre os meus umbrais.
      Seu olhar tem a medonha dor de um demónio que sonha,
      E a luz lança-lhe a tristonha sombra no chão mais e mais,
      E a minh'alma dessa sombra, que no chão há mais e mais,
                  Libertar-se-á... nunca mais!

16 de abril de 2008

 

Coração pateta

ser feliz

não é seguir a seta.

 

Kabs

14 de abril de 2008

primeiro frio do ano

fui feliz

se não me engano

p.l.

11 de abril de 2008

Vozes

 

hoje eu prefiro

   deixar-me arrastar

deixar a insegurança

    voltar a respirar

 

hoje eu decidi,

   deixar de lado, a razão

fazer um vôo cego

    sem limites, pro acaso

 

ouvi um sussurro

    esqueça de lembrar ...

pois esse gosto

    de passado

já começa a azedar

 

    e passei a ouvir

de muito longe

   os passos surdos

da minha sobriedade,

   cada dia mais zonza

e amiga da saudade.

 

 

Kabs

8 de abril de 2008

Just like a Dylan

       Quantas personalidades são necessárias para se formar um dos maiores ícones do rock de todos os tempos?
Difícil resposta hein? O diretor e roteirista Todd Haynes (Velvet Goldmine, 1998) responderia que são seis. 
     Ao menos é o número de facetas do protagonista, que ele exibe na sua nada convencional biografia sobre Bob Dylan (I'm Not There, 2007).
          Haynes distribui momentos da vida do rockeiro entre os anos 60 e 70, entre seis atores: Christian Bale, Cate Blanchett,Marcus Carl Franklin,Richard Gere,Ben Whishaw e Heath Ledger (é, esse mesmo).
          É interessante imnottherever o jovem negro Marcus Carl Franklin interpretando Dylan, então com 11 anos, conversando e agindo como se tivesse 40. Outro atrativo numa, curiosidade um tanto mórbida, é ver Heath Ledger em um de seus últimos traballhos, interpretando um astro caseiro e com problemas comuns à todos os mortais. 
          Mas sem dúvida quem rouba a cena é Cate Blanchett, interpretando o cantor na fase mais chapada (e provavelmente a mais criativa), apesar de não ter o mesmo sexo do personagem,é de longe a mais parecida com ele! Além de ser nessa época que ele tem encontros históricos e lendários com os beatles e o poeta beatnik Allen Ginsberg, e do sarrinho que tira de Bryan Jones dos Stones, o apresentando a um amigo como sendo "o guitarrista de uma banda de covers".
          O resultado é um caleidocópio da vida de Bob Dylan, mostrando as identidades e mudanças necessárias para formar um artista completo, de criança prodígio a cristão novo, de profeta folk a Rockstar. O nosso Bob Dylan (ou seria o contrário?), já dizia que preferia ser uma metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo ...

7 de abril de 2008

 

Das Ruas

 

        se não fossem as letras

seria puta

        ou michê,

e aprenderia na prática

        a real ficção

que não

        se lê

 

 

Kabs

6 de abril de 2008

    

      O que o amanhã não sabe,

o ontem não soube.

     Nada que não seja hoje

jamais houve.

    

P.L.

5 de abril de 2008

Valsinha

Um dia, ele chegou tão diferente do seu jeito de sempre chegar

Olhou-a de um jeito muito mais quente do que sempre costumava olhar

E não maldisse a vida tanto quanto era seu jeito de sempre falar

E nem deixou-a só num canto, pra seu grande espanto, convidou-a pra rodar

E então ela se fez bonita como há muito tempo não queria ousar

Com seu vestido decotado cheirando a guardado de tanto esperar

Depois os dois deram-se os braços como há muito tempo não se usava dar

E cheios de ternura e graça, foram para a praça e começaram a se abraçar

E ali dançaram tanta dança que a vizinhança toda despertou

E foi tanta felicidade que toda cidade se iluminou

E foram tantos beijos loucos, tantos gritos roucos como não se ouvia mais

Que o mundo compreendeu

E o dia amanheceu

Em paz.

Chico Buarque/Vinícius de Moraes

4 de abril de 2008

O VERÃO DA LATA

 

       O verão da lata, foi um  dos mais surreais e malucos acontecimentos da história da terra brasilis.

        No verão de 1987/1988, ou seja, há quase 20 anos,um navio panamenho batizado de Solana Star levantou âncora na Austrália e fblog_24_10_babilonia1981ez uma pequena parada em Cingapura, onde carregou para seus porões cerca 22 toneladas de erva prensada e acondicionada em 20 mil latas lacradas a vácuo! Destino?Brasil.

        Porém, longe da costa mas já em águas brasileiras o cargueiro passou a ser perseguido pela marinha, que havia sido alertada por um instituto amerciano anti-drogas, que a carga do navio era fumaça sólida. Acuados pelos militares os tripulantes dispensaram toda a carga ao mar.

        Por motivos divinos, demoníacos, marleísticos ou por mera coincidência, as latas foram espalhadas por várias praias, do Rio de Janeiro ao Rio Grande do Sul.

       Começaram a chegar uma a uma, até que uma alma curiosa abriu um exemplar. Em poucos dias as praias cariocas viraram a Meca de todo tipo de maluco que você possa imaginar. A comoção foi geral, pessoas passavam o dia olhando pro mar em busca de um reflexo que pudesser ser uma lata desgarrada do "rebanho".

        A fama da boa qualidade do produto espalhou-se rapidamente, e uma verdadeira caça as latas se iniciou, pescadores encontravam e as enterravam para a venda posterior ou por medo da polícia, que estava em total alerta para o acontecimento. Surfistas, playboys, traficantes, todos de olho na lata. Aliás, religiosos e conservadores em geral, pregavam que o fim dos tempos estava se iniciando com o culto à maconha que estava ocorrendo no litoral brasileiro.

         Apenas 4,5 toneladas foram recuperadas, o restante literalmente virou fumaça. A lata, virou camiseta, gíria, sinônimo de algo muito bom e deu nome ao verão mais louco de que se tem memória (ou não).

3 de abril de 2008

Instinto

São nos primeiros dias de abril
que o coração vai fechando,
à espera do frio
Hibernação imprescindível
para em setembro abrir
e o tolo voltar ao cio.



Kabs

2 de abril de 2008

"Quando o cinza de um dia taciturno bate dentro da gente,
sentimos uma dor gostosa, como a melodia dos poetas.
Num instante sentimos um prazer calmo e solene.
Se isso ocorrer com você um dia qualquer,
não faça por menos, curta esse dia minuto a minuto,
não se envergonhe, nada é ruim se você se enquadra na sua felicidade.
Calce a poesia e ande."



Paulo Baleki