CANÇÃO DA TORRE MAIS ALTA
Mocidade presa
A tudo oprimida
Por delicadeza
Eu perdi a vida
Ah! Que o tempo venha
Em que a alma se empenha
Eu me disse: cessa
Que ninguém te veja:
E sem a promessa
De algum bem que seja
A ti só aspiro.
Augusto retiro.
Tamanha paciência
Não irei esquecer.
Temor e dolência,
Aos céus fiz erguer.
E esta sede estranha
A ofuscar-me a entranha.
Qual o Prado imenso
Condenado a olvido,
Que cresce florido
De joio e de incenso
Ao feroz zunzum das
Moscas imundas.
Arthur Rimbaud
22 de dezembro de 2006
12 de dezembro de 2006
11 de dezembro de 2006
9 de dezembro de 2006
8 de dezembro de 2006
5 de dezembro de 2006
Amor nos três pavimentos
Eu não sei tocar, mas se você pedir
Eu toco violino fagote trombone saxofone.
Eu não sei cantar, mas se você pedir
Dou um beijo na lua, bebo mel himeto
Pra cantar melhor.
Se você pedir eu mato o papa, eu tomo cicuta
Eu faço tudo que você quiser.
Você querendo, você me pede, um brinco, um namorado
Que eu te arranjo logo.Você quer fazer verso?
É tão simples!... você assinaNinguém vai saber.
Se você me pedir, eu trabalho dobrado
Só pra te agradar.
Se você quisesse!... até na morte eu ia
Descobrir poesia.
Te recitava as Pombas, tirava modinhasPra te adormecer.
Até um gurizinho, se você deixar
Eu dou pra você...
Vinícius de Moraes
Eu não sei tocar, mas se você pedir
Eu toco violino fagote trombone saxofone.
Eu não sei cantar, mas se você pedir
Dou um beijo na lua, bebo mel himeto
Pra cantar melhor.
Se você pedir eu mato o papa, eu tomo cicuta
Eu faço tudo que você quiser.
Você querendo, você me pede, um brinco, um namorado
Que eu te arranjo logo.Você quer fazer verso?
É tão simples!... você assinaNinguém vai saber.
Se você me pedir, eu trabalho dobrado
Só pra te agradar.
Se você quisesse!... até na morte eu ia
Descobrir poesia.
Te recitava as Pombas, tirava modinhasPra te adormecer.
Até um gurizinho, se você deixar
Eu dou pra você...
Vinícius de Moraes
4 de dezembro de 2006
Cartão de Natal
Pois que reinaugurando essa criança
pensam os homens
reinaugurar a sua vida
e começar novo caderno,
fresco como o pão do dia;
pois que nestes dias
a aventuraparece em ponto de vôo, e parece
que vão enfim poder
explodir suas sementes:
que desta vez não perca esse caderno
sua atração núbil para o dente;
que o entusiasmo conserve vivas
suas molas, e possa enfim o ferro
comer a ferrugem
o sim comer o não.
João Cabral de Melo Neto
1 de dezembro de 2006

Era uma vez uma história bem pobrezinha, tão pobrezinha que não tinha personagens, não tinha começo, não tinha meio, não tinha fim, nem enredo ela tinha. E para que serve uma história sem enredo?
A pobre da nossa história andava por aí pedindo:
- Um enredo, pelo amor de Deus!
Mas ninguém dá a mínima atenção a uma história sem enredo.
E a historinha sem enredo passava por grandes histórias, cada uma mais orgulhosa do seu enredo.
Uma era a história de um cavaleiro de armadura que atacava até moinhos de vento.
A historinha olhava e dizia:
- Puxa!, isso é que é enredo. Quem dera eu tivesse um enredo assim!
Outra era a história de um médico que virava monstro e de um monstro que virava médico. Tinha também a história de um rei que tinha uma távola redonda. Todas as histórias tinham enredo, menos a nossa.
Um dia, nossa história decidiu, “vou sair pelo mundo e vou encontrar um enredo, custe o que custar”.
Assim, nossa história correu mundo, conheceu todos os lugares, viu cidades imensas, ouviu a queixa das pessoas, o som das trombetas e o barulho dos cascos dos cavalos do rei. Viu bandidos serem enforcados, foi presa, foi solta, foi presa de novo, fugiu.
Assim, os anos se passaram, e assim a nossa história voltou ao ponto de partida. Agora, já era uma velha história, uma história que os pescadores contavam nas noites de lua, as velhas contavam para as crianças dormir, e as pessoas sonhavam quando queriam esquecer da vida.
Um dia, nossa história estava para morrer. Então, ela reuniu em sua volta todas as pequenas anedotas da vizinhança, os episódios mínimos e as piadas sujas e disse:
- Meus amores, antes de partir tenho uma coisa muito importante para contar a vocês, que vão alegrar os homens, fazer as mulheres chorarem e apavorar as crianças.
Já era quase nada, quando conseguiu dizer:
- Era uma vez uma história bem pobrezinha, tão pobrezinha que não tinha personagens, não tinha começo, não tinha meio, não tinha fim, nem enredo ela tinha.
E morreu dizendo:
- Para que serve uma história sem enredo?
Paulo Leminski
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